domingo, 16 de dezembro de 2012

A CULTURA DA FRAUDE

ZERO HORA 16 de dezembro de 2012 | N° 17285


EDITORIAIS


A Polícia Federal prendeu na última semana 46 suspeitos de participação em sete quadrilhas que fraudavam vestibulares de Medicina em 11 Estados brasileiros. As organizações criminosas, que contavam com a liderança e a operação de médicos, enfermeiros, empresários, estudantes da área da saúde e de Direito, utilizavam esquemas sofisticados, como pontos eletrônicos, e também falsificavam documentos para que pessoas melhor capacitadas substituíssem os candidatos nas provas. Em um ano e meio, período da investigação, os criminosos fraudaram mais de 50 processos seletivos em universidades prestigiadas do país, quase todas particulares.

No momento em que o país recebe um sopro de decência, com a condenação pelo Supremo Tribunal Federal de políticos, empresários e servidores que traíram a confiança dos cidadãos, episódios como esse da fraude estudantil merecem ser evidenciados para que os brasileiros se vacinem contra a cultura da desonestidade. Guardadas as proporções, a distinção entre mensaleiros e estudantes que ludibriam as regras sociais está apenas na consequência dos seus atos – isso quando um profissional formado na base do jeitinho e do logro não causa danos tão irreparáveis aos pacientes quanto aqueles provocados por políticos corruptos que desviam recursos públicos para o próprio bolso.

Colar numa prova escolar parece uma coisa insignificante, mas não deixa de ser um indício de má formação moral. Pagar alguém para fazer o vestibular em seu nome – um passo adiante da cola – já entra no terreno do crime, pois envolve falsidade ideológica e corrupção. Os casos investigados pela Operação Calouro, assim identificada pela Polícia Federal, envolvem um esquema tão planejado, que havia inclusive tabela de preços diferenciada para o serviço contratado pelo “cliente”. Na opção VIP, o contratante sequer precisava sair de casa, pois os criminosos falsificavam documentos e mandavam alguém qualificado fazer a prova por ele. E cobravam entre R$ 45 mil e R$ 80 mil. Na modalidade mais popular, os próprios candidatos faziam o exame, mas recebiam as respostas por meio de pontos eletrônicos. Pagavam entre R$ 25 mil e R$ 40 mil.

Evidentemente, os quadrilheiros flagrados em delito merecem punição rigorosa, como prevê a legislação penal. Mas os beneficiários da fraude também deveriam ser exemplarmente sancionados, de preferência com visibilidade que desestimule outros jovens a seguir o mau passo. A penalização didática se impõe porque dificilmente um estudante entra numa falcatrua dessas sem o respaldo familiar, seja por incentivo, seja por omissão. Por fim, é indispensável que as instituições educacionais reforcem seus mecanismos de controle para garantir lisura e equidade nas disputas por vagas no Ensino Superior, mas a principal prevenção, inquestionavelmente, é uma boa educação familiar.

sábado, 15 de dezembro de 2012

LEILÕES: GOLPE, FRAUDE E AMEAÇAS

ZERO HORA 15 de dezembro de 2012 | N° 17284

REMATES DUVIDOSOS

Esquema de fraude de leilões é desvendado. Leiloeiro oficial, ex-funcionário de fórum e um PM foram presos ontem


Três pessoas suspeitas de integrarem uma suposta quadrilha especializada em fraudar leilões foram presas ontem em Crissiumal, no noroeste gaúcho. A operação Camaleão, deflagrada pela polícia civil, deteve, ao todo, nove pessoas e envolveu 40 agentes. Outro integrante do bando já havia sido preso em novembro. Entre os suspeitos, estão o ex-funcionário do fórum, José Paulo Gessinger, o policial militar Sérgio Gress Veivenberg, ambos de Crissiumal, e o leiloeiro oficial, Vilmar Bertoncellos, em Ijuí. No mês passado, o advogado Atanagildo José de Almeida Neto já havia sido preso.

Aorganização seria responsável por adquirir os imóveis a preços inferiores aos valores de mercado.

A ação consistia basicamente em comprar imóveis que iriam a leilão por preços bem inferiores aos de mercado. Para isso, os integrantes da quadrilha usariam também nomes de laranjas. Num primeiro momento, o cúmplice arrematava um imóvel, mas não pagava, o que resultava em novo leilão. Quando a outra venda pública se realizava, havia menos procura pelo imóvel. Era quando o grupo arrematava por um preço inferior ao de mercado.

Segundo o delegado William Dal Bosco Garcez, um imóvel avaliado em R$ 180 mil foi comprado por R$ 1,8 mil em 2006 e não havia sido registrado.

Há suspeitas inclusive de ameaça a herdeiros de inventário para a venda dos bens.

– Identificamos mais de 15 lotes de um terreno. Em todos eles, o grupo tinha adquirido uma procuração de compra e venda, nenhum no nome dos integrantes da quadrilha – comentou o delegado.

Os suspeitos responderão por crimes como estelionato, formação de quadrilha, fraude em arrematação judicial e sonegação fiscal. Até o início da noite de ontem, os presos não haviam confirmado quem seriam os advogados para suas defesas. O delegado não confirmou o conteúdo do depoimento dos suspeitos porque a investigação ainda prossegue.


Como agiam

- O ex-funcionário do fórum tomava conhecimento dos imóveis que iriam a leilão.

- Por meio de laranjas, a quadrilha adquiria os imóveis por um preço muito inferior ao valor de mercado.

- Em alguns casos, o bando ameaçava herdeiros de inventários, com o objetivo de adquirir os bens a um preço baixo.

- Após as aquisições, os imóveis eram revendidos ou até mesmo administrados pelo grupo.



SUA SEGURANÇA | HUMBERTO TREZZI

Lobos entre ovelhas

Que tal promover uma grande venda de bens administrados pelo poder público e fazer com que comparsas seus adquiram os bens leiloados, dividindo com eles o lucro?

Pois é isso, em resumo, que estaria ocorrendo em Crissiumal, conforme investigação que resultou na prisão de nove pessoas pela Polícia Civil, ontem. Feito lobos em pele de cordeiros, funcionários públicos da ativa e aposentados, advogados e até um policial estariam por trás do esquema.

Agiriam em nome do poder público, com informação privilegiada, lucrando de forma privada. Negócio perfeito, ao arrepio da lei. Pelo menos 20 imóveis teriam sido comprados desta forma, conforme a investigação.

O pior, nisso tudo, é que não falta mercado para quem se dispuser a falcatruas do gênero. Leilões acorrem a qualquer hora no Rio Grande do Sul, já que a lista de bens apreendidos pelo Judiciário nunca para de crescer.

De carros a tratores, de casas a lanchas. Isso é o pior, no golpe descoberto ontem: os servidores encarregados de zelar pelo bem apreendido eram os mentores da fraude. Inevitável que um clima de desconfiança perdure, após uma notícia dessas. Menos mal que a Polícia Civil cumpriu sua parte e interrompeu o esquema.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

FALCATRUAS SA


ZERO HORA 13 de dezembro de 2012 | N° 17282

Especializados em enganar e falsificar documentos

Organizado como empresa, grupo desbaratado pela polícia aplicava golpes e pirateava produtos de grife


EDUARDO TORRES


Tudo funcionava como uma empresa. Tinha proprietários, supervisores, agentes e até contador. Mas todos dedicados ao estelionato de diversas formas. A quadrilha foi desbaratada ontem após seis meses de investigação da Delegacia Fazendária da Polícia Civil.

A partir do casal Luis Benoni Melo Carvalho e Janaína Suziak, presos temporariamente em casa, ontem pela manhã, no bairro Jardim Algarve, em Alvorada, a polícia identificou mais de 30 “funcionários” que atuavam nos ramos de falsificação de documentos, golpes contra financeiras, bancos e o programa Minha Casa Minha Vida e distribuição de produtos piratas no centro de Porto Alegre. Na ação que mobilizou 350 policiais, 25 suspeitos foram presos.

Com a chegada à origem de um documento adulterado, os investigadores descobriram que aquela era apenas uma ponta do conglomerado especializado em fraudes.

– Eles atuavam basicamente no Centro. Era a partir dali, com a propaganda de boca a boca, que tramavam os golpes, cooptavam “laranjas” e faziam suas vítimas – diz o delegado.

O “escritório” era um bar na Rua Riachuelo, no centro da Capital. Entre uma cerveja e outra, surgiam as oportunidades para encaminhar novos negócios.

Para o delegado Daniel Mendelski, que comandou a Operação Banco Imobiliário pela Delegacia Fazendária, é difícil precisar o montante dos lucros dos criminosos.

– Essa era a atividade deles. Chegavam ao bar de manhã e decidiam: “agora vamos aplicar uma financeira”, ou “está chegando o final de semana, vamos fazer um crediário”. E faziam tudo com os documentos frios – exemplificou Daniel Mendelski.

Tudo era organizado. Quem fazia os golpes, devia satisfações ao casal. Por vezes, quem ficava na linha de frente do esquema nem tinha contato com a liderança. E, exatamente como uma firma, a maior parte dos lucros nos golpes ia para as mãos dos líderes. Além dos presos em Alvorada, a ação de ontem teve prisões nos bairros Rubem Berta e Partenon, e em Guaíba e Canoas.





Como agiam
MINHA CASA, MINHA VIDA
- Os alvos da quadrilha eram pessoas de baixa renda, em especial, na zona sul da Capital. Nessa área, o homem conhecido como Bira garantia que trabalhava como representante autorizado pela Caixa para agilizar aprovações de financiamentos pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Para isso, exigia o pagamento de “reforços”, que giravam em torno de R$ 500, como forma de garantir a aprovação junto ao órgão federal. Mas as vítimas nunca recebiam aprovação ou viam a cor da casa.
- Famílias de baixa renda, na verdade, não precisam da figura do facilitador. Uma vez inscritas no Demhab, é o órgão municipal quem faz a primeira avaliação da renda e das condições da família e encaminha o processo até Brasília. Uma vez aprovado, a pessoa é contatada diretamente pela Caixa ou pelo Demhab.
FALSIFICAÇÃO DE DOCUMENTOS
- Um dos presos na ação seria o responsável pelo maquinário gráfico do bando. E as falsificações eram as mais abrangentes possíveis. De talões de cheques frios, que chegavam a ser vendidos por apenas R$ 15, até carteiras de identidade, CNHs, comprovantes de residência e de renda.
- A operação geralmente era iniciada nos bares do Centro. Havia pessoas encarregadas de cooptar potenciais “laranjas”. Estes “vendiam” por quantias irrisórias (até R$ 100) o nome e o CPF, sem restrições de crédito. Parte do bando tinha a sua atuação limitada à confecção e venda dos documentos falsos.
INDÚSTRIA DE GOLPES
- Os investigadores seguiram a trilha do financiamento jamais pago. Quando chegaram ao suposto proprietário (e devedor), descobriram que se tratava de um andarilho cooptado no “escritório” da firma falcatrua. Em troca de algumas cervejas, ele teria emprestado seus dados.
- Usando documentos frios, os criminosos adquiriam carros, eletrodomésticos, roupas e empréstimos em bancos e financeiras.
PIRATARIA
- A suspeita da polícia é de que o Camelódromo fosse o principal escoadouro do quarto braço da quadrilha. Eles haviam se tornado fornecedores de produtos piratas, em especial tênis e roupas de grifes famosas. A origem dos produtos e o volume comercializado ainda são investigados.
- Na ação de ontem, os agentes chegaram aos depósitos da pirataria.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

GOLPE MILIONÁRIO NO INSS


ZERO HORA 04 de setembro de 2012 | N° 17182

PREJUÍZO MILIONÁRIO
Atestados falsos e um rombo no INSS. Investigação aponta que médico psiquiatra vendia documentos a R$ 140

THIAGO TIEZE 

Após cinco meses de investigação e outros quatro analisando informações, a Operação Blindagem II, realizada pela Polícia Federal (PF) e pela Previdência Social, apontou suspeitas de fraude em 945 benefícios que, distribuídos por 12 cidades do Estado e de Santa Catarina, chegam R$ 47,9 milhões. O grupo responsável pelo golpe milionário tem como peça central um médico psiquiatra que vendia laudos atestando doenças psiquiátricas por valores entre R$ 120 e R$ 140.

Ainvestigação apontou também o envolvimento de dois advogados e de um despachante previdenciário. Foram rastreados benefícios irregulares concedidos desde 2003. Conduzida pela delegada federal Ilienara Cristina Karas, da Delegacia de Repressão a Crimes Previdenciários, a operação identificou irregularidades em benefícios concedidos pelas agências de Porto Alegre, Santa Maria, Uruguaiana, Pelotas, Passo Fundo, Novo Hamburgo, Ijuí, Caxias do Sul, Canoas, Florianópolis, Criciúma e Chapecó:

– É o crime previdenciário mais em voga, porque o auxílio por doença psiquiátrica é muito difícil de você comprovar o contrário. Não há exame clínico ou laboratorial que prove a inexistência desse tipo de enfermidade.

O volume da fraude surpreendeu a própria delegada, que há 10 anos lida com esse tipo de crime:

– Ele (o médico) dava atestado de 15 em 15 minutos.

As investigações demonstraram que não havia servidores do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) envolvidos. Os benefícios estão sendo analisados pelo órgão e, se comprovada a fraude, serão cassados. Depois, o resultado da investigação será encaminhado ao Ministério Público Federal. Os beneficiados poderão responder por estelionato contra a Previdência. Os advogados, o médico e o despachante, além de estelionato, são suspeitos de falsidade de documento público e fraude processual.

A investigação começou em novembro, e a Blindagem II foi deflagrada em março deste ano, quando se estimou que o quarteto tivesse fraudado em torno de R$ 3 milhões. Na época, médico, advogados e despachante tiveram a suspensão de exercício de atividade econômica determinada (não puderam atuar em suas áreas) pela Justiça. Após recurso, a suspensão foi cassada.


O golpe

- O médico psiquiatra, que atende em Porto Alegre, era ajudado por dois advogados e um despachante previdenciário.
- As pessoas chegavam ao médico de duas formas: por indicação dos outros três comparsas ou por meio de outros clientes.
- O médico expedia atestados de doenças psiquiátricas inexistentes nos clientes, cobrando entre R$ 120 e R$ 140. Às vezes, os clientes nem sequer compareciam ao consultório, recebendo o documento pelos Correios.
- Com o atestado, os clientes iam às agências do INSS no Estado ou em Santa Catarina e entravam com pedidos de auxílio-doença ou de aposentadoria por invalidez.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

VÍTIMAS DE CRIMES ELETRÔNICOS


 CORREIO DO POVO 16/07/2012 08:22

A cada dia, 77 mil brasileiros são vítimas de crime eletrônico




Oito em cada dez internautas já sofreram golpes on-line. Entre os crimes mais comuns, está xingamento em redes sociais

A cada dia, pelo menos 77 mil brasileiros são vítimas de algum crime virtual, segundo relatório da empresa especializada em segurança de computadores Symantec-Norton. Em 2011, mais de 80% dos usuários adultos de Internet no Brasil foram vítimas de crimes cibernéticos, como invasão de perfis em redes sociais e vírus. O número de vítimas diárias no mundo chega a 1 milhão, com prejuízo anual de 388 bilhões de dólares. Só no Brasil, são 60 bilhões de dólares - no País, oito em cada dez internautas disseram já ter sofrido golpes on-line.

Segundo o titular da Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Informáticos, delegado Marcínio Tavares Neto, as fraudes mais comuns envolvem conta corrente, vendas sem a entrega da compra, links que corrompem o computador e xingamento nas redes sociais. O diretor do Gabinete de Inteligência e Assuntos Estratégicos da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, Emerson Wendt, orienta a manter o sistema operacional e de segurança atualizados; não clicar em documentos; atenção ao escolher senhas; desconectar após acessar e-mails e sites; em compra na web, verificar a idoneidade da empresa; evitar dados pessoais em sites não confiáveis.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

FIÉIS LESADOS


ZERO HORA 13 de julho de 2012 | N° 17129

Pastores são presos por golpe. Atraídas por ofertas vantajosas de veículos, vítimas sofreram prejuízo de R$ 20 milhões no Brasil, dos quais 1,2 milhão no RS - RÓGER RUFFATO | Veranópolis


Entre pregações e a coordenação de igrejas evangélicas, pastores ganhariam a vida iludindo fiéis pelo Brasil. No Rio Grande do Sul, pelo menos 40 pessoas foram lesadas em R$ 1,2 milhão. Uma mulher apontada como mentora do golpe está foragida.

Chamada de Deus Tá Vendo, uma operação da Polícia Civil gaúcha cumpriu cinco mandados de prisão temporária durante a tarde de quarta-feira em Itajaí (SC), Ponta Grossa (PR) e São Gonçalo (RJ). Os pregadores dessas regiões são suspeitos de participar de um esquema de venda fraudulenta de veículos que teria arrecadado cerca de R$ 20 milhões em todo o Brasil.

As denúncias chegaram à Polícia Civil depois que um policial e um familiar do delegado titular de Veranópolis, Marcelo dos Santos Ferrugem, caíram no golpe. As investigações tiveram início em novembro de 2011.

– Continuaremos as buscas pela mulher e solicitaremos à Justiça de Veranópolis a prorrogação das prisões temporárias de todos suspeitos, por mais cinco dias – destacou o delegado regional, Paulo Roberto Rosa da Silva.

Para o cumprimento dos mandados de prisão, cinco delegados e 11 agentes gaúchos participaram das diligências, além do reforço das polícias dos demais Estados. Os pastores detidos foram recolhidos ao Presídio Regional de Nova Prata e devem responder por estelionato, formação de quadrilha e falsificação de documentos.

As vítimas gaúchas são na grande maioria de Veranópolis, onde residem 37 delas. Há mais duas de Bento Gonçalves e uma de Nova Prata. O grupo aplicava os golpes também em Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. A polícia não divulgou o nome dos presos.



ENTREVISTA- “Jamais desconfiaria de um amigo e pastor”

Nivaldo Penso - Vítima do golpe


O empresário de Bento Gonçalves Nivaldo Penso, 42 anos, foi vítima do golpe e detalhou o esquema ao Jornal Pioneiro. Confira a entrevista:

Jornal Pioneiro – Como a oferta de compra de veículos foi feita?

Nivaldo Penso – Quem me ofereceu foi um amigo pessoal que frequentava a minha casa e, inclusive, viajávamos juntos com as famílias. Jamais poderia desconfiar de um amigo e pastor. Ele tinha uma planilha de venda com os modelos e valores. Negociei um ônibus no valor de R$ 25 mil e uma caminhonete por R$ 20 mil.

Pioneiro – Como era feito o pagamento?

Penso – Sempre com depósito à vista. Um dos valores foi pedido que eu depositasse na conta da Igreja Presbiteriana Viva, do Rio de Janeiro, e o outro na conta de uma pessoa física ligada à Igreja Assembleia de Deus Bom Retiro, em São Paulo. Como ele disse que os carros foram doados para a igreja pela Receita Federal, não estranhei naquele momento a forma de pagamento ou os valores.

Pioneiro – Quando você passou a desconfiar que se tratava de um golpe?

Penso – Eles tinham prometido a entrega dos veículos para 30 dias a partir da data do depósito, mas, passou o prazo, e nada. Entrei em contato e sempre protelavam mais a entrega. Diziam que era um processo lento e que era para ter calma. Começaram a inventar desculpas. Então, soube por conhecidos que outras pessoas também passavam pelo mesmo problema, em Veranópolis, e fui atrás delas.

Como funcionava
- Uma mulher, que se apresentava como juíza da Receita Federal no Rio de Janeiro ou como auditora do órgão, se aproximava de pastores evangélicos de vários Estados e fazia uma proposta de trabalho.
- Ela fornecia aos pastores uma listagem contendo modelos e preços de carros, caminhonetes, caminhões e ônibus. Os preços eram mais de 50% abaixo do preço de mercado.
- Caso eles vendessem um determinado número de veículos, receberiam uma comissão e um carro ao término das vendas. A justificativa para o preço era de que se tratava de veículos doados pela Receita Federal para serem vendidos entre as igrejas.
- Os pastores por sua vez usavam as planilhas para oferecer os veículos para um grupo pequeno de pessoas, normalmente amigos e um número reduzido de fiéis, para não alarmar.
- Os pagamentos eram sempre à vista, com depósitos em conta de igrejas ou laranjas. Normalmente, o dinheiro ficava poucas horas na conta e era repassado para a mulher que, segundo a polícia, seria a gerente de operações do grupo.
- Os carros, que nunca existiram, não eram entregues, e as vítimas passaram a cobrar dos pastores. Algumas reuniões chegaram a ser marcadas como tática para acalmar as pessoas que seguiram sem os bens.
Fonte: Fonte: Polícia Civil

terça-feira, 3 de julho de 2012

GOLPE DE LARANJAS ATINGE BANCO

 
ZERO HORA 03 de julho de 2012 | N° 17119

FANTASMAS DO CRIME

Bancos são vítimas de golpe de R$ 1 milhão

Quadrilha usava laranjas e documentos falsos para captar empréstimos - EDUARDO TORRES

Morando em áreas nobres da Capital, eles se apresentavam como empresários. Mas, conforme uma investigação policial de três meses, eles montaram um complexo esquema de falsificações de documentos e lavagem de dinheiro que deixou para trás um prejuízo ao sistema bancário de pelo menos R$ 1 milhão.

Na manhã de ontem, três das sete pessoas apontadas pela Polícia Civil como líderes da quadrilha foram presas temporariamente, na Operação Caça-Fantasmas. O líder seria um homem de 29 anos, morador do bairro Bela Vista. Ele não foi capturado.

O esquema consistia no uso de nomes de laranjas para alterar o corpo societário e a razão social de empresas com CNPJs muito antigos e em desuso na Junta Comercial. A polícia acredita que boa parte dos donos dessas empresas é de baixa renda e tenha sido também vítima. Em média, cada empréstimo chegava a R$ 200 mil. As supostas empresas ofereciam veículos (em muitos casos, semirreboques) como garantia de patrimônio para cobrir as dívidas no momento de pedir os empréstimos. O problema é que os veículos nunca existiram.

– Eles apresentavam uma documentação correta dos veículos, como se os semirreboques tivessem sido fabricados para a empresa. Até que os bancos fossem cobrar, já era tarde – diz o delegado Ajaribe Rocha Pinto.

Os nomes dos suspeitos e dos bancos lesados não foram divulgados pela polícia. O que os investigadores ainda não sabem é o nível de envolvimento das empresas autorizadas pelo Detran para fornecer o registro dos veículos.

– Podem ter sido vítimas do golpe ou participantes. A partir da operação, tenho certeza que aparecerão mais vítimas, e os valores de prejuízo devem ser ainda maiores – afirmou o delegado.


Empresário preso seria o mentor do esquema

Na manhã de ontem, o suspeito apontado como mentor dos golpes contra o sistema bancário foi preso pelos agentes da 15ª DP. O homem de 54 anos seria proprietário de uma locadora de veículos em Porto Alegre. De acordo com a polícia, ele teria ensinado o restante do bando a forjar o golpe.

– A partir do que eles conseguiam nos bancos, custeavam a compra de novos veículos, viagens e todo tipo de bens – explicou o delegado Ajaribe Rocha Pinto.

Também foram capturadas duas mulheres. Uma delas, de 52 anos, era a contadora do grupo. A outra, de 24 anos, seria namorada de um dos líderes da quadrilha. Ela guardava as documentações e possivelmente providenciava falsificações para eles. Além do líder da quadrilha, os policiais ainda buscam envolvidos nos golpes em Alvorada, Viamão e Esteio.

O esquema
- Estelionatários descobriam documentos de empresas antigas, que muitas vezes nem sequer estão em atividade, mas seguem cadastradas na Junta Comercial.
- Mudavam a razão social e incluíam o nome de um dos golpistas como sócio.
- O grupo aumentava o chamado capital social da empresa, e então procurava bancos em busca de empréstimos, alegando que investiria o dinheiro na firma.
- Como garantia, davam documentos de veículos (entre eles, tratores e máquinas).
- Aparentemente, os veículos eram regulares (a polícia ainda investiga).
- Os bancos só descobriam o esquema quando as primeiras faturas não eram pagas.