segunda-feira, 19 de maio de 2014

FRAUDES ONLINE FAZEM 77 MIL VÍTIMAS POR DIA

JORNAL EXTRA 19/05/14 

O delegado Alessandro Thiers, da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) Foto: Divulgação


Igor Ricardo


É comum ouvir, diante do comentário de que alguém foi vítima de um golpista, a frase “Mas eu nunca cairia num golpe desses”. Apesar disso, cerca de 77 mil brasileiros sofrem diariamente em fraudes online, de acordo com dados da empresa de antivírus Norton. A crença de que a autoria do delito não será descoberta é o principal motivo que leva uma pessoa a não denunciar a prática.

No conto da noiva russa, por exemplo, uma pessoa envolve a outra de tal maneira que a acaba convencendo de mandar dinheiro para uma conta bancária com a justificativa de que “ela” gostaria de vir ao Brasil visitar o “amante”. Certamente, tal jovem não era nem jovem, nem bela, e, talvez, nem mulher.

— A internet expõe a gente. As pessoas sabem o que você faz, seu cotidiano. Certa vez, fui apresentar um programa numa web TV, antes de entrevistar a personagem, eu analisei o perfil dela numa rede social. Quando ela chegou, já fui falando do que ela gostava de fazer, e ela ficou assustada com tudo que fui falando. Estamos expostos ao perigo — contou Gilmar Lopes, criador do blog E-Farsas e pesquisador da web desde o início da internet no Brasil.

Os crimes cibernéticos vão além do estelionato, porém. Ataques à honra, extorsão, pedofilia e apologia ao crime também são cometidos na rede. E toda delegacia é obrigada a registrar a ocorrência e investigar os crimes virtuais.

No Rio de Janeiro, desde 2000 a apuração de casos de maiores complexidades é feita pela Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI). De acordo com o titular da especializada, Alessandro Thiers, não existe uma classe social alvo dos crackers (indivíduo que usa seus conhecimentos para atos ilegais na web). Ainda segundo Thiers, mais de 40% dos casos ocorridos na internet são de crimes contra a honra. Seguido das fraudes de um modo geral e da pedofilia.

— Tudo que acontece no mundo virtual é real. São reais as empresas, as pessoas, elas podem não ser verdadeiras, mas são reais. A internet deixa rastro. Por isso, quase sempre chegamos a autoria desses crimes. A população tem que denunciar — afirmou o delegado.

Atenção aos filhos

Cuidado com o conteúdo que seus filhos têm acesso na internet. Caso eles usam sites de redes sociais, tenha sempre a ciência do que eles fazem com quem falam e sobre o que falam.

Bom demais...

Cuidado com e-mails de ofertas boas demais ou de produtos muito baratos.

Desconfie

Se você começar a receber e-mails de resposta de algo que você não enviou, desconfie.

Contas pessoais

Evite usar computadores de uso coletivo para acessar suas contas pessoais;

Extensões de arquivos

Cuidado com arquivos de extensões como “.exe”, “.rar” ,“.pif”, “.dll”, “.scr”, “.com” e “.zip”. É comum usuários mal intencionados enviarem arquivos com vírus disfarçados de música, filmes, programas etc.


Leia mais: http://extra.globo.com/casos-de-policia/fraudes-online-fazem-77-mil-vitimas-por-dia-12527154.html#ixzz32AsptBNQ

domingo, 13 de abril de 2014

O HOMEM DE 30 MIL DESAFETOS


ZERO HORA 13 de abril de 2014 | N° 17762

HUMBERTO TREZZI


INVESTIGAÇÃO. Como o advogado de Passo Fundo Maurício Dal Agnol, foragido da Justiça e suspeito de dar golpe em milhares de clientes, fez fama e fortuna no norte do Estado


Houve um tempo em que era status se dizer amigo de Maurício Dal Agnol – ou apenas ser seu conhecido. Advogado especializado em causas coletivas, ele cruzava os ares da América a bordo de seu jatinho particular, rumo ao apartamento em Nova York. Fez carreira estratosférica a partir de um escritório montado em Passo Fundo. O grande salto para a fama e a fortuna veio ao se tornar o maior credor de uma onda de processos bilionária contra a empresa de telefonia Brasil Telecom (BRT), movida por antigos acionistas da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT), que exigiam reajuste nos valores pagos a eles pelas ações da empresa – comprada pela BRT e que deu origem à atual Oi.

A imagem de Dal Agnol, 39 anos, como patrono do turfe no norte do Estado, mecenas do futebol, patrocinador de festas milionárias e impulsionador de campanhas políticas ruiu em fevereiro, quando teve a prisão preventiva decretada a partir de um nutrido inquérito elaborado pela Polícia Federal (PF). Antes de ser capturado, fugiu, tornando-se um dos mais poderosos foragidos da Justiça brasileira.

A investigação aponta que o advogado fez acordos em nome dos clientes e não repassou a eles os ganhos das causas. Ou, no máximo, indenizou-os com apenas 20% do devido (e não 80%, como acordado nos contratos). Mais de 45 pessoas afirmam na Justiça que foram enganadas por Dal Agnol, mas a maré de denúncias contra ele pode ser avassaladora. Com ajuda de uma rede de captadores de clientes, seu escritório montou filiais em Porto Alegre, Santa Maria, Caxias do Sul, Novo Hamburgo, Cascavel (PR) e Curitiba. A PF calcula que eles firmaram contratos com cerca de 30 mil pessoas.

Em algumas cidades, como Montenegro, o grupo de Dal Agnol promovia encontros em salões e divulgava a causa em megafones, convidando ex-acionistas da CRT a processarem a Brasil Telecom pelo baixo valor pago pelas ações. Alegava que, em decorrência de cálculos mal feitos na privatização da estatal de telefonia, cada proprietário de linha tinha direito a mais um lote residual de ações a receber.

O começo de carreira foi bem diferente, difícil. Filho de uma servidora da Justiça Estadual, vindo da cidade de Sarandi, ele estudou Direito em Passo Fundo e se formou em 1994. Já auxiliava escritórios de advocacia e trabalhou no Banco do Brasil, onde lhe chamaram a atenção as grandes causas coletivas contra empresas. O primeiro escritório próprio foi montado no pequeno apartamento onde vivia, com esposa e filha. Na época, tinha um Fusca modelo 1978. A história pode ser conferida no próprio site do seu escritório.

O grande salto na carreira veio após a privatização da CRT, em 1998. Dal Agnol começou a arrebanhar antigos acionistas da empresa, exigindo em nome deles indenização pelo “baixo valor” pago pela BRT por ações que eles possuíam. A partir de 2003, o escritório de Dal Agnol começou a vencer as causas em primeira instância. Em poucos anos, ele se tornou milionário.

Dados da Receita Federal mostram que, em 2008, passaram pelas contas de Dal Agnol R$ 69 milhões. Em 2009, foram R$ 48 milhões, em 2010, R$ 222 milhões e, em 2011, R$ 139 milhões. Em quatro anos, ele teve registrados em suas contas cerca de R$ 480 milhões.

Em 2004, o Fusca já tinha sido trocado por um Polo modelo 2002. Em 2013, seu patrimônio automobilístico incluía Land Cruiser, Prisma, Clio, Discovery, Mégane e Captiva. Em nome da sua mulher constam um Honda CRV e um Porsche Cayenne turbo. Dal Agnol era imponente também nos céus. Adquiriu um avião Phenom 300, avaliado em US$ 12 milhões (R$ 28 milhões). O custo mensal de manutenção, pilotos e hangar da aeronave, agora apreendida pela PF, é avaliado em R$ 50 mil.

A filha dele ganhou, ao completar 15 anos, uma festa que deslumbrou Passo Fundo, além de um cavalo avaliado em R$ 800 mil. Aliás, Dal Agnol virou sinônimo de hipismo no Estado. Em 2009, abriu o Centro Hípico e Haras MD, em uma área de 10 hectares, dotada de arena de shows com capacidade para 8 mil pessoas. Ali se apresentaram, de forma gratuita para os passo-fundenses, Jorge & Mateus e NX Zero. A arquibancada tem capacidade para 1,8 mil pessoas, e o local inclui parque de diversões gratuito, estacionamento para 150 automóveis e restaurante que pode atender simultaneamente 120 pessoas. O próprio site do haras diz possuir “uma das três melhores pistas para competições equestres do Brasil”. Os cavalos e a estrutura da hípica continuam sendo mantidos pelos empregados de Dal Agnol.

Todos esses bens estão indisponibilizados pela Justiça. Uma fortuna que veio fácil, mas agora se reduz no ritmo do naufrágio do homem que angariou 30 mil desafetos.

Caçada internacional esbarrou na burocracia

Maurício Dal Agnol passeava por Nova York na primeira quinzena de fevereiro, com a família, quando surgiu o decreto de sua prisão – e da sua mulher, Márcia Fátima. Desde então, os dois sumiram.

Eles estavam no recém-comprado apartamento, na 302 East 77th Street, na Ilha de Manhattan, próximo ao badalado Central Park. ZH teve acesso ao contrato de aquisição do apartamento, firmado em 13 de setembro do ano passado. Situado no 15º andar, o imóvel contempla um andar inteiro e foi adquirido por US$ 5,8 milhões (o equivalente a R$ 12,7 milhões).

Tudo isso já era de conhecimento da Polícia Federal, tanto que, antes mesmo de ser noticiada a prisão preventiva, os delegados Mário Vieira e Mauro Vinícius Soares de Moraes haviam solicitado ao Judiciário que oficiasse o Ministério da Justiça sobre o sumiço do advogado. Isso permitiu incluir o nome de Dal Agnol na lista da Difusão Vermelha, o que o torna um procurado em mais de 130 países signatários da Interpol. O mandado de prisão foi traduzido para o inglês e levado até o Ministério das Relações Exteriores, que o repassou formalmente à Embaixada dos EUA em Brasília. A diplomacia brasileira avisou o FBI.

Um contratempo minou essa agilidade. Um procurador de Justiça norte-americano pediu mais detalhes sobre o caso, antes de permitir que a ordem de prisão entrasse em vigor nos EUA. Novo material foi enviado pela PF, mas, nesse meio tempo, Dal Agnol desapareceu de Nova York. A ordem de prisão já está valendo e, nos aeroportos, “é quase impossível ele passar”, afirma o representante da Interpol em Porto Alegre, delegado Farnei Franco Siqueira. Uma possibilidade é que ele tenha escapado, via terrestre, pelas fronteiras canadense ou mexicana.

– Mais dia ou menos dia ele cai – afirma Farnei.

Os advogados de Dal Agnol, Ricardo de Oliveira Silva e Paulo Dariva, impetraram sucessivos habeas corpus, na tentativa de relaxar a prisão preventiva do cliente. Alegam vícios formais no processo: Dal Agnol foi citado por edital, “cuja nulidade do ato é flagrante, pois não foi procurado em todos os endereços conhecidos”. Além disso, dizem que a prisão preventiva foi decretada quando o advogado estava de férias em Nova York, onde possui residência, com endereço certo e informado. É para lá, segundo eles, que deveria ter sido expedida carta rogatória, antes de se buscar o decreto de prisão por edital. A prisão foi mantida, tanto em primeiro grau quanto no Tribunal de Justiça.


R$ 286 mil a políticos

Decidido a azeitar relações com o poder, Maurício Dal Agnol mantinha contato com políticos do norte do Estado desde 2008, em uma escalada que evoluiu a cada eleição e que não discriminava partidos.

Conforme o Tribunal Superior Eleitoral, ele contribuiu com R$ 6 mil em 2008, R$ 125 mil em 2010 e R$ 155 mil em 2012, para políticos de oito partidos. Dos candidatos beneficiados em 2012, um se elegeu prefeito de Passo Fundo (Luciano Azevedo, do PPS, beneficiado com R$ 25 mil). Rival do eleito, Osvaldo Gomes, do PMDB, recebeu R$ 25 mil. Dal Agnol destinou ainda R$ 60 mil ao comitê financeiro do candidato do PT a prefeito de Passo Fundo, Rene Cecconello.

Ele doou também R$ 20 mil para a candidata do PT à prefeitura de Barra Funda (um antigo distrito de Sarandi, sua terra natal), Cândida Beatriz Rossetto.

– Não conhecia Dal Agnol, mas ouvia falar muito. A doação foi para o comitê. Aí fui apresentado a ele. Tudo foi dentro da lei. Era um sujeito prestigiado. Levamos um susto com o caso – declarou Luciano Azevedo.

– Fui prefeito duas vezes, mas, curiosamente, não conhecia o Dal Agnol. A doação dele foi ao comitê de campanha. Fosse hoje, ninguém aceitaria – diz Gomes.

– Conhecia o advogado de vista. Ele ofereceu doação, recomendei que fizesse ao comitê – afirma Cecconello.

– O Maurício tem cunhada em Barra Funda, ela ofereceu contribuição dele. Aceitamos. Não houve ilegalidade – diz Cândida.


Vítimas de golpe pretendem processar empresa de telefonia

Uma nova frente judicial está sendo aberta no caso envolvendo Maurício Dal Agnol. Integrantes de uma associação em apoio às vítimas do advogado anunciaram que vão ingressar com centenas de ações civis e criminais contra a Brasil Telecom (BRT, hoje Oi).

O advogado já tinha vencido a batalha na maioria das instâncias judiciais, e a BRT, temerosa de perder um valor que poderia chegar a R$ 638 milhões, propôs acordo, homologado em juízo. Conforme o contrato, a BRT concorda em pagar 50% dos R$ 638 milhões (o equivalente a R$ 319 milhões) reivindicados pelos clientes do advogado. O documento ainda registra o pagamento de R$ 50 milhões a Dal Agnol a título de honorários. Em troca, ele concorda em pôr fim às causas e renunciar a todos os recursos que move contra a empresa de telefonia.

O primeiro problema é que, conforme a Polícia Federal, Dal Agnol não consultou seus clientes sobre o acordo com a Brasil Telecom. O segundo, apontam os federais, é bem maior. Dal Agnol teria sumido com a maior parte do dinheiro devido a seus clientes. Conforme a investigação da PF, o advogado se comprometia a cobrar 20% de honorários pela causa ganha – mas cobrou 80%, entregando apenas 20% aos clientes.

Na semana passada, foi formada em Passo Fundo uma Associação em Apoio às Vítimas de Dal Agnol, que conta com respaldo de renomados advogados da cidade, como Irineu Gehlen, Jabs Paim Bandeira e Aline Pereira de Moura. Aline já pediu o desarquivamento de 300 ações que tinham sido acordadas entre Dal Agnol e a Brasil Telecom. A partir desse primeiro passo, a advogada pretende ingressar com ação para nulidade dos acordos e também ação por danos morais contra a BRT, pedindo ressarcimento dos valores supostamente perdidos pelos clientes de Dal Agnol.

– Como Dal Agnol está foragido, nada mais justo que seu parceiro nos contratos, a Brasil Telecom, pague. Partiu da BRT a iniciativa do acordo que resultou em metade do que os credores desejavam – justifica Aline.

O acordo entre Dal Agnol e a BRT foi estruturado em 2010 pelo advogado Marco Antonio Bezerra Campos, contratado pela empresa de telefonia para este caso específico. Campos diz que a BRT, ao quitar parte do passivo com seu maior credor nessa causa das ações da antiga CRT, conseguiu reduzir a dívida para metade do que estava depositado nos tribunais, como garantia.

– Dal Agnol assinava em nome de seus clientes. Se não informou a eles, aí é um problema para as autoridades verificarem. Se não entregou o dinheiro devido aos clientes, é um problema a ser resolvido pela polícia. Assinamos acordos com 20 outros escritórios, e os clientes deles receberam o dinheiro – pondera Campos.

Contratado por Dal Agnol para atuar nessa causa em Brasília, o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral Luiz Carlos Lopes Madeira afirma que acompanhou, como advogado, processos contra a BRT no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Dos R$ 50 milhões pagos a Dal Agnol pela BRT, Madeira diz ter recebido 12,5%, “como honorários, não como comissão”. Ele frisa não ter responsabilidade no fato de Dal Agnol não ter repassado os recursos do acordo aos autores das ações.

Em nota, a empresa Oi informou que todos os contratos firmados pela companhia “são juridicamente perfeitos e estabelecidos estritamente dentro do que determina a lei, não sendo permitido nenhum tipo de ilicitude”.


Uma cidade indignada

JULIANA BUBLITZ

No comércio, nas esquinas e nos bancos da Praça Marechal Floriano, no Centro, a fuga de Maurício Dal Agnol é motivo de indignação em Passo Fundo. O advogado, hoje, é um homem odiado no município de 185 mil habitantes. Os estragos causados pelo golpe que pode ter lesado 30 mil vítimas não são apenas econômicos. São também emocionais. Entre os possíveis prejudicados, estão aposentados, profissionais liberais, empresários, comerciantes.

– Está todo mundo revoltado – resume o químico Jocemar Castanho, 40 anos.

Entre as centenas de vítimas está o ex-padre José Valdemir Bianchin Gheno, 70 anos, que viu a mulher definhar por uma década sem ter condições financeiras de confortá-la no momento da dor. A mulher de Gheno chamava-se Carmelina Helena Comin e morreu aos 76 anos, em março de 2012. Não por acaso, ela dá nome à operação da Polícia Federal deflagrada para investigar Dal Agnol. Ex-freira, casou-se com Gheno, que largou a batina após 30 anos de sacerdócio, em 2004. Nessa época, já sofria de um câncer agressivo de intestino.

Antes de adoecer, moveu duas ações contra a Brasil Telecom, tendo Dal Agnol como advogado. Recebeu apenas parte do que tinha direito. Na fase terminal da doença da mulher, Gheno relata ter ido várias vezes ao escritório dele perguntar sobre as ações e ter ouvido sempre a mesma resposta:

– Ele dizia que o dinheiro ainda não tinha vindo, e eu estava desesperado, porque a gente precisava. Foi muito triste.

Ao descobrir que deveria ter recebido R$ 124 mil – e não R$ 17 mil, como teria informado Dal Agnol –, Carmelina o processou. Conforme o advogado Otto Bohm Júnior, que cuidou do caso, foi possível reaver o recurso, mas já era tarde demais. Ela estava em estado terminal.

O viúvo se emociona quando relembra o drama. Ao receber ZH em sua casa, na quinta-feira passada, não quis ser fotografado, mas fez questão de mostrar um retrato de Carmelina para que ela “não seja esquecida”. Gheno pretende ir às ruas protestar ao lado de outros membros da associação de vítimas.

– Não podemos desistir até que todos os responsáveis estejam na cadeia – desabafa.

Histórias semelhantes se multiplicam. Um casal de aposentados que pediu para não ser identificado também diz ter sido prejudicado por Dal Agnol. Por intermédio do advogado, os dois entraram na Justiça contra a Brasil Telecom em 2007. Quatro anos depois, os R$ 120 mil repassados pela empresa, segundo a atual advogada do casal, Aline de Moura, teriam sido recebidos por Dal Agnol. Até agora, no entanto, os clientes não viram a cor do dinheiro.

– A gente ia até o escritório dele e sempre nos diziam que iam dar um retorno, que iam ligar quando o dinheiro entrasse. Nunca fizeram contato – lamenta a aposentada.

A sensação de impotência também tira o sono do empresário André Renato Bolner, 45 anos, de uma tradicional família da cidade. Ele afirma ter obtido apenas 10% do valor total efetivamente ganho com uma ação. Desconfiou que podia estar sendo enganado e foi mais de 40 vezes procurar Dal Agnol entre novembro de 2013 e fevereiro deste ano para pedir explicações.

– Meus pais estão muito mal de saúde, e eu venho dilapidando o patrimônio da família para cuidar deles. Tentaram me dizer que uma das minhas ações não tinha dado em nada, o que era mentira – afirma Bolner.

Dono de loja de materiais de construção, Lauri Manjoni, 47 anos, ainda tenta digerir o que aconteceu. Há 10 anos, ouviu falar da possibilidade de ser indenizado pela Brasil Telecom e autorizou seu contador a entrar em contato com Dal Agnol para avaliar a possibilidade de entrar na Justiça.

– Até já tinha esquecido aquilo quando soube que não tinha nada a receber. Mas, agora, descobri que era para eu ter recebido R$ 98 mil em 2012 – conta Manjoni.

Corredor de motocross, o comerciante diz que, se pudesse, usaria o dinheiro para comprar duas motos novas para ele e para o filho Vinícius, 16 anos, que também é competidor.



COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Como pode um brasileiro fazer fortuna tão rápido sem que os órgãos de controle e fiscalização consigam enxergar?  Há alguma falha no sistema que só alcança os servidores com contra-cheque.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

CRIANÇAS ENGANADAS POR FALSA VENDEDORA

ZERO HORA 04 de abril de 2014 | N° 17753



AMIGA DA ONÇA



A polícia do Vale do Sinos está atrás de uma mulher de 27 anos, que já conseguiu furtar mais de R$ 15 mil em objetos pessoais de diversas pessoas de Novo Hamburgo, Campo Bom e São Leopoldo. A suspeita foi identificada como Cristiana Peixoto Goulart e seria moradora de Porto Alegre. O primeiro furto cometido por ela na região foi registrado em novembro do ano passado, em Campo Bom.

Segundo a Polícia Civil, a mulher sempre age da mesma maneira. Usando o nome de Bruna, ela se passa por vendedora de cosméticos e convence crianças e adolescentes a permitirem sua entrada em casas e condomínios – alguns com segurança privada.

Foi o que aconteceu com a filha de 12 anos de Regina Druzyan. A adolescente permitiu a entrada da mulher no apartamento da família, localizado no bairro Canudos. Segundo a diarista, a suposta Bruna causou um prejuízo de aproximadamente R$ 1,5 mil.

– Minha filha está abalada – diz a mãe.

Segundo o delegado Cleber Santos de Lima, é importante os pais reforçarem os pedidos de cuidados aos filhos ao conversarem com estranhos.

domingo, 23 de março de 2014

OS HOMENS DO CAMARO AMARELO

ZERO HORA 23 de março de 2014 | N° 17741

ARTIGOS


por Moisés Mendes*



Havia um Camaro amarelo na garagem de um dos suspeitos de integrar a quadrilha liderada por um doleiro, desmontada na semana passada pela Polícia Federal. Um Camaro amarelo tem efeito devastador. Alguém flagrado com dólares em casa e um correntão no pescoço escapa fácil da cadeia e de vexames.

Se tiver um Camaro amarelo, também escapa, mas sua reputação se complica. O Camaro amarelo rebaixa o status de honestos e de delinquentes. É o carro mais depreciado pela adoração dos novos endinheirados. Por que alguém que desvia milhões de dólares, circula entre poderosos e engana a polícia durante anos não se livra da tentação de ter um Camaro amarelo?

O dono de um carro assim é denunciado por falha na ostentação. A Polícia Federal localizou sete máquinas potentes nas garagens dos suspeitos: quatro BMW dos mais variados modelos, duas Mercedes e o Camaro. Em todas as fotos divulgadas por ZH sobre o caso, o que mais aparece é o Camaro.

O velho Camaro da Chevrolet, dos anos 70, que a Ford tentou imitar depois com o Maverick, começou a ser desmoralizado pela própria Chevrolet. Um pouco de história. Os carros que Henry Ford produzia no início do século 20 eram pretos. Ford determinou que a cor dos carros deveria ser esta, apenas esta.

Surge a GM, e o gênio Alfred Sloan desafia a sabedoria de Ford: os carros deveriam ser coloridos. Foi a GM de Sloan que coloriu os carros. Até que um dia, nos anos 70, alguém decidiu pintar o Camaro de amarelo. Aí, passaram dos limites.

Um Camaro amarelo é assustador, não é como uma Brasília amarela. Uma Brasília, com ou sem roda gaúcha, circulava por aí com o charme conferido pelos Mamonas. Já os tripulantes de um Camaro passaram a ser os ostentadores da breguice.

Você, que tem um Camaro de outra cor, certamente sofre discriminações por causa da fama dos donos de Camaros dourados. Veja o exemplo de Jurerê, que era até bem pouco a mais charmosa praia da ilha de Florianópolis. Jurerê foi sendo tomada por Camaros, correntões, mulheres de salto 11 e som na caixa.

Os moradores de Jurerê reagiram. Aguentam a gritaria dos quase famosos da TV que invadiram a praia, suportam a apavorante arquitetura da nova vizinhança tipo Miami Beach, as cantorias do Luan Santana e o desfile de fortões de sunga branca. Mas não há como aguentar o enxame de Camaros amarelos e seus significados.

Há um embate na Justiça dos moradores com os responsáveis pelos estragos da invasão dos tais beach clubs em Jurerê. São cinco beach clubs. Os frequentadores desembarcam dos Camaros e amanhecem bebendo champanhe doce, dançando e cantando. Fiquei sabendo no veraneio que a praia é uma permanente festa rave do sertanejo universitário.

Jurerê era silenciosa, com suas belas casas baixas. Virou “internacional” e chegaram os Camaros e os beach clubs. Foram erguidas as Casas Brancas, que podem ser azuis, roxas, amarelas, rosas. São habitações que imitam mesmo a Casa Branca do Obama, com o triângulo do Partenon ao alto da porta.

A arquitetura do novo rico deformou Jurerê. Na frente das casas, os carrões da Chevrolet e seus semelhantes. Moradores nativos e antigos, sabiás, caturritas, andorinhas abandonam o norte da ilha e migram para o sul, para o Campeche, para fugir dos donos dos Camaros e de seus acompanhantes.

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Carros-totens denunciam os donos e suas patologias. Eike Batista tinha uma Mercedes Mclaren de R$ 3 milhões na sala da mansão em Botafogo. O que faz um homem ostentar um carro, em fotografias que se repetiam em jornais e revistas, dentro da sala? Que adoração transforma um automóvel num ente da família?

Eike quebrou e passou a leiloar seus bens. Tentou vender um iate, computadores, mesas, utensílios de escritórios. Não se sabe se ficou com a Mercedes. Homens apaixonados por carros vendem aviões, casas, pulseiras e panelas, mas não conseguem se desfazer dos automóveis.

É uma paixão potencializada pela transformação do carro no símbolo da prosperidade brasileira (este é um país tão próspero, que os supermercados conseguem vender ovos de chocolate de 250 gramas por R$ 48!!! Inventamos o ovo-camaro).

Nunca antes comemos tanto ovo de chocolate e circulamos tanto de Camaro amarelo no Brasil. E dizer que já fomos o país do Fiat 147 e do Chevette.

*Jornalista A fuzarca chega de Camaro a Jurerê e empurra os moradores do norte para o sul da ilha

sábado, 22 de março de 2014

PUXÃO DE ORELHAS



ZERO HORA 22 de março de 2014 | N° 17740


FERNANDO GOETTEMS



Idosa repreende suspeito de aplicar golpe do bilhete




Após quase ser vítima de estelionato, uma idosa de Ijuí, no noroeste do Estado, indignada com a ação de dois supostos bandidos, puxou a orelha de um deles dentro da Delegacia da Polícia Civil do município, quando ele estava sendo preso em flagrante após tentar lhe aplicar o golpe do bilhete.

Segundo o registro na Polícia Civil, por volta das 10h10min de ontem a Brigada Militar foi informada de que uma idosa teria entrado em um veículo juntamente com dois indivíduos no centro da cidade. O carro foi seguido e, depois se ser abordado, dois homens, um de 24 e outro de 54 anos, foram presos em flagrante. Um deles pagou fiança e está solto.

De acordo com a idosa, um dos homens a abordou, na Rua 14 de Julho, no Centro. Ele disse que era analfabeto e que queria chegar à Rua Uruguai, onde iria buscar máquinas que estavam em um conserto.

Nesse momento, outro homem, comparsa no golpe, se aproximou e também passou a oferecer ajuda ao homem que se dizia analfabeto.

– Ele disse que, quando deixou a máquina para consertar, ficou com um bilhete de loteria, que teria ganho como garantia. Depois, disse que tinha que ir até a Caixa, porque tinha esquecido documentos, e nós tínhamos que dar o testemunho, dizer que ele era o ganhador do bilhete.

De acordo com a idosa, que não quer ser identificada, ela embarcou com os dois homens em um carro. No caminho, percebeu o golpe.

– Disse pra ele: “para que eu não tenho dinheiro, não tenho nada”. Ele viu a polícia seguindo o carro e me mandou descer – contou.

Na delegacia, a idosa não se conteve ao deparar com um dos suspeitos.

– Olhei para ele e enfiei a mão com toda a gana – conta, explicando como puxou a orelha direita do jovem.


segunda-feira, 17 de março de 2014

QUADRILHA LAVOU R$ 19 BILHÕES


PF faz operação para prender quadrilha que lavou R$ 10 bilhões. Policiais cumprem mandados de prisão e de busca e apreensão em seis estados e no Distrito Federal

JAILTON DE CARVALHO E LUIS LOMBA
O GLOBO
Atualizado:17/03/14 - 11h55




BRASÍLIA e CURITIBA - A Polícia Federal realiza na manhã desta segunda-feira uma operação para prender 28 pessoas acusadas de desvio de dinheiro público, tráfico de drogas, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, entre outros crimes. Com base em dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf ), a polícia calcula que o grupo movimentou mais de R$ 10 bilhões, dinheiro de origem ilegal.

Quatrocentos policiais foram destacados para cumprir as prisões e também 81 mandados de busca e apreensão em 17 cidades, em seis estados: Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal. A base da operação da PF é em Curitiba (PR).

Entre os presos está o dono de um posto de combustível em Brasília, ligado ao doleiro doleiro Fayed Antoine Traboulsi. A operação, batizada de “Lava-jato”, é o desdobramento da operação Miquéias. Em Brasília, foi apreendido um Camaro amarelo.

Também estão sendo cumpridas ordens de sequestro de imóveis de alto padrão, além da apreensão de patrimônio adquirido por meio de práticas criminosas, e bloqueio de dezenas de contas e aplicações bancárias.

No Paraná, a ação reuniu 40 policiais, que cumprem dois mandados de prisão, seis de condução coercitiva e nove de busca e apreensão em Curitiba, São José dos Pinhais, Londrina e Foz do Iguaçu.

— São pessoas que, por meio da compra e venda de grandes quantias em dólares, faziam a lavagem desse dinheiro de diversas maneiras, inclusive criando empresas fictícias no Brasil e no exterior, fazendo compras fictícias e encaminhando esse dinheiro para fora do país— disse o chefe da Comunicação da Polícia Federal no Paraná, Paulo Gomes da Silva.

Segundo Gomes da Silva, o grupo investigado é acusado de lavar dinheiro cuja origem vem de diversos tipos de crimes em todo o país:

— Esse grupo de pessoas investigadas, além de envolver alguns dos principais personagens do mercado clandestino de câmbio do Brasil, é responsável também pela movimentação financeira e lavagem de ativos de pessoas físicas e jurídicas envolvidas com diversos crimes, como tráfico internacional de drogas, corrupção de agentes públicos, sonegação fiscal, contrabando de pedras preciosas, desvio de recursos públicos, entre outros que serão agora objeto de investigação— disse o policial.


terça-feira, 4 de março de 2014

GOLPE EM BANCÁRIOS



ZERO HORA 04 de março de 2014 | N° 17722

JOSÉ LUÍS COSTA


Grupo desviou R$ 1,4 milhão

Ministério Público denunciou cinco pessoas suspeitas de envolvimento em esquema que lesou sócios de sindicato na Capital



O Ministério Público Estadual encaminhou denúncia à 9ª Vara Criminal do Fórum Central da Capital contra cinco pessoas suspeitas de envolvimento em um esquema que teria lesado 137 associados do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários). O grupo teria desviado R$ 1,4 milhão – apuração inicial era de R$ 5 milhões – correspondentes a valores ganhos pelos trabalhadores em ações judiciais coletivas da categoria.

Conforme denúncia assinada pelo promotor Luís Antônio Portela, o golpe se materializou entre janeiro de 2004 e junho de 2012, envolvendo o ex-funcionário da tesouraria do sindicato João Carlos Galbarino Amaral, 46 anos, e outros quatro amigos, que serviriam de “laranjas” (concordavam com depósitos das quantias desviadas em suas contas em bancos). Um deles, Erni Menezes Flores, 50 anos, tinha sido integrante do conselho fiscal do Sindbancários em anos anteriores. Eles foram denunciados por estelionato e formação de quadrilha.

Com cerca de 20 anos de serviços no sindicato, Amaral teria acesso aos valores porque a entidade representava os associados em ações judiciais que visavam buscar perdas salariais da categoria causadas por diferentes pacotes econômicos (leia quadro ao lado). A fraude foi descoberta pela diretoria do Sindbancários ao perceber sinais aparentes de enriquecimento de Amaral, em junho de 2012. Naquela época, ele estava em férias e o trabalho ficou sob responsabilidade de um diretor, cuja formação é auditor fiscal. Em poucos dias, o diretor percebeu algo errado: muitos pedidos de recebimento de dinheiro referente a ganhos judiciais, sempre com a mesma caligrafia.

Com a desconfiança, os dirigentes sindicais determinaram uma inspeção interna e depois contrataram uma auditoria externa que confirmou o golpe, resultando no afastamento de Amaral.

A partir daí, a Polícia Civil foi acionada. Municiada com documentos fornecidos pelo sindicato, a Delegacia Fazendária (Defaz) deflagrou a Operação Ourives. Após um ano de investigações, em setembro passado, agentes da Defaz identificaram três cúmplices de Amaral e de Erni Menezes Flores.

Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em Porto Alegre, nas casas de Amaral e de outros dois suspeitos, em uma fazenda, que pertenceria a Erni Flores, em Alegrete, na Fronteira Oeste, e no apartamento de outro envolvido em Linhares, no Espírito Santo. Foram recolhidos sete revólveres, 11 carros, além de computadores e documentos. A Justiça também decretou o sequestro de bens dos denunciados.

Em depoimentos à Polícia Civil, acusados negaram fraude

Conforme a denúncia do MP, em poder de Erni Flores foram apreendidas listas com nomes dos bancários beneficiados em processos trabalhistas e também dos lesados pelo golpe. O Sindbancários ressarciu as vítimas e agora busca na Justiça reaver os valores com a eventual perda dos bens dos denunciados.

Em depoimentos à Polícia Civil, os cinco negaram participação na fraude. Zero Hora ligou para o telefone de Erni Flores, mas ele não atendeu às ligações ontem à tarde. Amaral não foi localizado.


ENTENDA O GOLPE

- Pacotes econômicos do governo federal como planos Verão, Bresser, Cruzado e Collor provocaram perdas salariais aos bancários.

- Para reaver esses valores, o sindicato ingressou com ações judiciais coletivas.

- Como os processos demoraram anos para serem julgados, alguns bancários deixaram de acompanhar o trâmite judicial, esquecendo de checar os resultados das ações e de ler boletins informativos do SindBancários.

- Em nove processos, 137 bancários tiveram ganho da causa, mas não apareceram para receber o dinheiro, equivalente a R$ 1,4 milhão, depositado em uma conta especial do sindicato.

- Aproveitando-se disso, o ex-funcionário da tesouraria João Carlos Galbarino Amaral teria falsificado procurações e endossos, induzindo a direção do Sindbancários a equivocadamente assinar cheques que seriam em favor dos beneficiados pelas ações judiciais.

- Em vez de os cheques serem entregues aos bancários, eram depositados em contas correntes de quatro amigos de Amaral. Por depósito, os donos das contas ficariam com 30% do valor.

- Pelo menos três bancários já estavam mortos quando os golpistas receberam o dinheiro em nome das vítimas.